É necessário ter mais respeito.
Escrevo isto do alto do meu privilégio. Em casa tenho tudo o que preciso. Em casa não me falta nada. Tenho água, luz, gás, internet, conforto, amor e até tenho amigos e família em casa - através do meu telemóvel, é claro, mas eles estão ali. Não me falta nada. Há quase um ano que trabalho em casa (com algumas interrupções), que faço compras em casa, leio, descanso e divirto-me em casa. Não me falta nada.
Sei que não é assim para todas as pessoas e não é exactamente para elas que me apeteceu escrever. Não é fácil para toda a gente ficar em casa, mesmo a quem, tal como eu, não lhe falta nada em casa. Mas falta-lhes o convívio, o ar da rua, o sol, o que for. E é a essas pessoas que eu digo que é necessário ter mais respeito.
Também gostava de ir até ao Terreiro do Paço ou para o Jardim da Gulbenkian apanhar o solinho de Inverno, mas é necessário ter mais respeito. Também gostava de estar fisicamente com os meus amigos, abraçá-los e rir estupidamente com eles, mas é necessário ter mais respeito. Também gostava de dar um abraço à minha Avó (não sei quantos mais anos terei com ela), mas é necessário ter mais respeito.
As medidas que têm vindo a ser tomadas pelo Governo não são perfeitas - longe disso! - e estão cheias de incompatibilidades e contradições mas a verdade é que NINGUÉM sabe lidar com isto, temos de confiar naqueles que tomam as decisões, naqueles que têm os dados, e acreditar que estão a fazer o melhor possível para controlar o incontrolável, o desconhecido e o incerto. É necessário mais respeito por quem nos Governa.
Aflige-me pensar nas empresas fechadas e no que isso representa para a Economia e, principalmente, para as pessoas. As pessoas que vêem o seu rendimento reduzido, as pessoas que perdem o emprego, as pessoas cujo emprego já era precário antes e que agora ficaram sem meios para persistir, as pessoas que estão na rua, as pessoas que têm negócios e foram obrigadas a fechar. É necessário mais respeito por estas pessoas. Fazer a nossa parte, que é só ficar em casa e reduzir os contactos ao mínimo essencial, para que isto passe o mais rápido possível e para que essas pessoas e esses negócios possam voltar à normalidade, possam abrir portas, possam voltar a ter rendimentos.
Há cada vez mais infectados, há cada vez mais mortos. Vai chegar a mim, a ti, aos nossos amigos, à nossa família. É necessário mais respeito por mim, por ti, pelos nossos amigos e pelas nossas famílias.
Não é difícil encontrar relatos de pessoal médico pelas redes sociais. Relatos angustiantes de pessoas que trabalham há meses praticamente sem tempo útil de descanso, horas de trabalho seguidas para além do humanamente aceitável, sem ver a família, sem poder estar com a família. Relatos de pessoas que estão a praticar medicina de guerra, com pouco pessoal, com poucos recursos, com poucas condições. Relatos de pessoas que agora, para além da responsabilidade da vida do outro (que já não era pequena), têm agora o peso inarrável da decisão sobre quem salvar, quem vive e quem morre. Uma miúda de 27 anos ou um velhote de 73 anos? Qual das miúdas de 27 anos? Qual dos velhotes de 73? Relatos de exaustão e de uma dor que nenhum de nós pode sequer começar por compreender. Relatos de pessoas que já não têm mais para dar, mas que mesmo assim continuam a dar. Porque têm que dar.
Para mim, a maior falta de respeito é para com estas pessoas. É necessário mais respeito pelo pessoal médico e pelo SNS.
É necessário ficar em casa, para não matar pessoas. Continua a haver outras doenças, outros acidentes, continuam a ser necessários cuidados médicos mas não há espaço, os Hospitais e as pessoas não têm como dar resposta. Está tudo cheio. Está tudo vazio. Está tudo exausto.
É muito fácil apontar o dedo o Governo e às medidas, porque isto e aquilo. E até podes ter razão. E até podes estar a ser sacrificado de uma forma que mais ninguém compreende e a tua dor é válida, mas vivemos em sociedade e devemos respeito uns aos outros. A nossa vontade individual não se pode sobrepor ao bem comum e não pode pôr em causa o bem-estar do próximo. Antes de apontares o dedo, olha primeiro para dentro. Pondera as tua decisões.
Quem sou eu para dizer o que deves ou não fazer? Ninguém. Mas não podia ficar calada ao ver-te a ir jantar fora porque és da Resistência. Ou a ver-te sem máscara porque o uso da mesma é um desrespeito pela tua Liberdade. Ou a ver-te passear a trela sem cão porque tinhas mesmo de ir apanhar ar. Ou a ver-te em jantares com os teus amigos porque sentes que não é isso que causa o aumento de casos.
Ouve os especialistas, cumpre e respeita as regras e deixa-te de merdas. Pára de inventar Teorias da Conspiração para justificar a estupidez das tuas ações. Pára de matar pessoas.
É necessário mais respeito. Por favor, tenham mais respeito.
Sem comentários:
Enviar um comentário